Testemunhas ratificam tese de homicídio qualificado e feminicídio no Caso Milena Gottardi

O Ministério Público do Estado do Espírito Santo (MPES) informa que no segundo dia do julgamento dos seis acusados de envolvimento no assassinato da médica Milena Gottardi, morta em setembro de 2017, foram ouvidas quatro testemunhas. As oitivas no Fórum Criminal de Vitória tiveram início às 9 horas e terminaram por volta das 20h30. Todas as testemunhas ratificaram a tese defendida pelo Ministério Público de homicídio qualificado, feminicídio e fraude processual.

A médica oncologista Milena Gottardi foi baleada na cabeça quando saía do Hospital das Clínicas, no bairro Maruípe, em Vitória, no dia 14 de setembro de 2017. Ela foi socorrida, mas não resistiu aos ferimentos e teve morte cerebral. Ela morreu aos 38 anos e deixou duas filhas. Inicialmente, a polícia suspeitou de uma tentativa de assalto. No entanto, as investigações apontaram para um crime encomendado. Os mandantes foram o então marido da médica, Hilário Frasson, e o pai dele, Esperidião Frasson.

O assassinato teve dois intermediários: Valcir da Silva Dias e Hermenegildo Palauro Filho. Eles, por sua vez, teriam ajudado os mandantes na contratação dos executores: Dionatas Alves Vieira, o atirador, e Bruno Rodrigues Broetto, primo de Dionatas, que teria roubado a moto para a execução do crime.

Testemunhas

Além de corroborarem com o que está na denúncia, as testemunhas ouvidas na terça-feira (24/08) trouxeram fatos novos demonstrando o quanto Hilário fazia mal para Milena, o quanto era complicado o relacionamento do casal e dele com os familiares da esposa. Também deixaram claro que a relação com a família de Hilário era extremamente tóxica com Milena, com as filhas do casal e com a família da mulher.
Uma das testemunhas reafirmou o depoimento de reconhecimento do assassino confesso de Milena. Outra testemunha, a advogada da vítima, contou como foram os últimos dias de vida da médica, comprovando que as tratativas para a separação do casal estavam em curso. Descreveu o comportamento de Hilário, que tentava usar da influência que tinha, principalmente no Judiciário, para amedrontar Milena e tentar demovê-la do pedido de divórcio.

O promotor de Justiça Leonardo Augusto de Andrade Cezar dos Santos, um dos três que atuam no caso, destacou que com Milena morreu a esperança de várias famílias de crianças com câncer por ela tratadas. “É um impacto para além da família da vítima. A maldade que consta nos autos é de desacreditar qualquer pessoa, pelo menosprezo com a vida humana”, avaliou. A expectativa do MPES é de que será feita Justiça no júri popular, composto por quatro mulheres e três homens, dos seis acusados pelo assassinato da médica.

Denúncia

A denúncia contra os seis comparsas acusados do homicídio de Milena Gottardi foi ajuizada em 27 de outubro de 2017. Hilário Antônio Fiorot Frasson, Esperidião Carlos Frasson, Valcir da Silva Dias, Hermenegildo Palauro Filho e Dionathas Alves Vieira foram denunciados pelos crimes de homicídio qualificado, feminicídio e fraude processual (artigo 121, § 2º, inciso I, IV e VI, e art. 347, parágrafo único, na forma do art. 29, c/c art. 69, do Código Penal), além de Bruno Rodrigues Broetto pelo crime de feminicídio (artigo 121, § 2º, inciso IV, na forma do art. 29, do Código Penal).
Segundo a denúncia, Hilário era casado com a vítima há 13 anos e passou a apresentar um comportamento agressivo e obsessivo para com a vítima, o que levou ao fim da relação conjugal. O fato não foi aceito por ele e pelo sogro da vítima, Esperidião, que tomou a separação como uma ofensa à família. Assim, ambos decidiram matar a médica e, com o auxílio de Valcir e Hermenegildo, contrataram Dionathas, pelo valor de R$ 2 mil para cometer o crime. O réu Bruno repassou a Dionathas a motocicleta usada para a execução do crime.

No dia e hora do crime, Valcir e Hermenegildo foram ao hospital e entregaram a Dionathas a arma utilizada para efetuar os disparos. Por volta das 18 horas, Hilário telefonou para a vítima para se certificar de que ela estava no local e o horário que sairia de lá. Em seguida, telefonou para Esperidião, que repassou as informações para Valcir, de modo a concretizar a prática do homicídio.

Quando a vítima deixou o hospital e se aproximou do veículo com outra médica, no estacionamento, Dionathas anunciou um assalto, determinando que ambas entregassem os pertences. Sem que esboçassem reação, Dionathas efetuou disparos em regiões letais exclusivamente contra a vítima Milena, executando o crime para o qual foi contratado, fugindo do local em seguida.

Recompensa

A denúncia do MPES deixa claro que o crime foi praticado por Valcir, Hermenegildo e Dionathas mediante promessa de recompensa feita por Hilário e Esperidião, denotando a torpeza da prática do crime pelos cinco denunciados. O crime revelou-se também de motivação torpe em relação ao denunciado Hilário, por este ter determinado a morte da esposa em razão de não aceitar que ela pusesse fim ao casamento. Já o denunciado Esperidião também agiu por motivo torpe, pois, com Hilário, determinou a morte de Milena por considerar um ultraje à família o fim do casamento.
Incide ainda no caso a qualificadora do feminicídio. O crime foi praticado contra mulher por razões do sexo feminino, com violência doméstica e familiar contra Milena, que foi executada por determinação de Hilário e Esperidião, cônjuge e sogro, respectivamente, situação que era do conhecimento de Hermenegildo, Valcir e Dionathas.

A execução da vítima arquitetada pelos denunciados Dionathas, Valcir, Hermenegildo, Hilário e Esperidião consistia em matar Milena simulando um roubo, para despistar a autoria do delito. Assim, como combinado e agindo por determinação dos mandantes, após a execução do homicídio, Dionathas levou com ele o telefone celular de Milena, com a intenção de fazer parecer que se tratava de um crime de latrocínio, tentando desviar a elucidação do crime e ocultar os verdadeiros autores do delito. Dionathas se desfez do aparelho logo após o crime e o celular não foi encontrado.